Morros velados 

A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela sob o azul cabralino são fatos estéticos.

    Oswald de Andrade, Manifesto pau-brasil, 1924.

 

 

As favelas, além de pertencerem ao patrimônio cultural e artístico do Rio de Janeiro, crescem de forma espontânea no inconsciente dos artistas, formando novas constelações no imaginário das Cidades. Ao mesmo tempo visíveis e invisíveis, mutantes e estáveis, as favelas são sonhadas antes de serem vistas, sentidas antes de serem visitadas. Ao condensar, como num sonho surrealista, as imagens de favelas publicadas pelos turistas ao voltar do Rio de Janeiro, Luiz Pizarro reintegra essas imagens dispersas ao seu processo criativo. O que ia embora com os “gringos” é reaproveitado para constituir uma nova camada, velada essa, da arquitetônica imaginária desses não lugares urbanísticos. A própria estética da favela é meticulosamente transformada em uma refavelização da tela. Esses espaços outros, habitados e planejados pelo outro, passam a ser invadidos também pelo artista-bricoleur que soube reaproveitar dos restos e pedaços de espaços e de visões alheias para realizar seus morros re-velados, parafinas de favelas ou paisagens sob a neblina.

 

Pelos gestos acumulativos e alusivos, que parecem parodiar, de certa forma, o próprio crescimento das favelas, o artista reconstrói o espaço através das suas pinturas-esculturas e recupera definitivamente as imagens fugitivas da sua cidade. A partir dos fragmentos impressos de favelas, Luiz Pizarro fabrica pequenas metonímias dos morros que figuram tanto frios (montes enevoados) e quentes (a parafina derretida), densos (detalhes) e leves (como uma vela), frágeis (quebráveis) e fortes (pinturas armadas). Essas novas quimeras absorvem, na opacidade da parafina, outros olhares, imagens de Debret e do próprio artista sobre Notre-Dame de Paris. Como que congeladas, as telas parecem procurar o amarelo do Sol por conta própria e afirmar a instabilidade da paisagem retratada.

 

Condensadas, integradas e logo dissolvidas na parafina, essas carrancas gigantes são fatos políticos transmutados em objetos simbólicos e poéticos: são fatos estéticos como dizia Oswald de Andrade. No azul escuro da noite, a favela deixa de ser antiestética para virar um quadro luminoso que atrai e afasta feito uma gárgula. Ao deixar derreter a própria imaginação, Luiz Pizarro apresenta a sua arqueologia e revela sua visão íntima do espaço familiar. Para reativar a poesia da geografia carioca, revelada por Hélio Oiticica, o artista cria armadilhas conceituais capazes de cegar o espectador. De olhos velados, ele é convidado a mudar sua visão do lugar...

 

Stéphane Rémy Georges Malysse

Prof. Dr. Arte e Antropologia Aplicada (EHESS)

Escola de Artes, Ciências e Humanidades / USP


Veiled Hills

“Poetry is present in facts. The saffron and ocher tumbledown houses on the green scenarios of the Slum under the mighty blue sky are esthetic facts.”

Oswald de Andrade, Manifesto Pau-Brasil, 1924*   

 

 

Slums are part of the cultural and art heritage of Rio de Janeiro and grow spontaneously in the artists’ unconscious, thus forming new constellations in the imaginary of the Cities. At the same time that they’re visible and invisible, mutable and stable, the slums are dreamt of before spotted, felt before visited. As he condenses the images of slums published by tourists as they return from Rio de Janeiro, as in a surrealistic dream, Luiz Pizarro restores those scattered images to his creative process. What went along with the “gringos” is reused to constitute a new layer, veiled, from the imaginary architecture of these urban ‘non-places’. The slum esthetics itself is meticulously transformed into a re-slumming of the landscapes. These other spaces, inhabited and planned by the other one are invaded also by the artist-bricoleur that knew how to reuse the leftovers and pieces of someone else’s spaces and views to attain his re-veild/revealed hills, paraffin of slums or landscapes through the mist.

 

Through his cumulative and allusive gestures, which, in a certain way, seem to                                                                                                                                              imitate the slums’ growth itself, the artist recreates the space through his paintings-sculptures and finally recovers the fleeting images of his city. As from the printed fragments of the slums, Luiz Pizarro creates small metonymies of the hills that seem, at the same time, cold (snowy mountains) and warm (melted paraffin), dense (details) and light (like a candle), fragile (breakable) and strong (supported paintings). These new chimeras absorb other looks in the opacity of the paraffin, images of Debret and also of the artist himself on the Notre-Dame Cathedral of Paris. As if they were frozen, the canvases seem to, on their own, search for the yellow of the sun and to reaffirm the instability of the described landscape.

 

Condensed, integrated and soon dissolved in paraffin, these giant carrancas* are political facts transformed into symbolic and poetical objects: according to Oswald de Andrade, they’re esthetic facts. In the dark blue night, the slum is no longer anti-esthetic and turns into a bright painting that attracts and repulses like a Gargoyle. As he lets his own imagination melt, Luiz Pizarro presents his own archeology and reveals his deep view of the familiar space. To reactivate the poetry of the carioca geography, revealed by Helio Oiticica, the artist sets conceptual traps that are able to blind the spectator. With veiled eyes, he is invited to change his vision of the place...

 

* Text published in 1924 as the basis for the principles of the Brazilian  Modernist Art Movement.

*Carrancas- A sort of a Brazilian Gargoyle, commonly used on boats, in northeastern Brazil,  in the early past.

 

Stéphane Rémy Georges Malysse,

Professor Doctor in Arts and Applied Anthropology (EHESS)

School of Arts, Sciences and Humanities / USP

 
 
  Site Map